quinta-feira, 13 de abril de 2017

A Mística Ortodoxa e a Mística Católico-Romana (Nikolai Berdyaev)

Há uma mística eclesiástica oficial do Oriente e do Ocidente, uma mística ortodoxa e uma mística católica. E a diferença entre os caminhos percorridos no mundo pelo Oriente ortodoxo e o Ocidente católico  podem ser explicados por aquilo que os distingue no plano da experiência mística. Há uma profunda diferença no vínculo original em relação a Deus e a Cristo. Para o Ocidente católico, Cristo é o objeto, está fora da alma humana na qualidade de inspiração e objeto de amor e exaltação. Assim, a experiência católica arrasta homem às alturas, em direção a Deus. A alma católica é gótica. O frio se une nela com a paixão. A imagem concreta, evangélica de Cristo, a Paixão de Cristo estão intimamente próxima da alma católica. A alma católica é apaixonada por Cristo; treme de amor por ele, sobre seu próprio corpo recebe os estigmas. Misticismo católico está impregnado de sensualidade, languidece e se desvanece, para ela não há outro caminho que aquele para onde leva a sua imaginação sensível. Corrente antropológica chega ali a sua tensão mais elevada. A alma católica grita: "Jesus, meu Jesus, meu próximo, meu amado." Ela se lança até ele, mas Deus não penetra nela: por que a alma católica tem frio, assim como também faz frio em seu templo. Deus não desce neste ou naquele. Em vez disso, a alma, apaixonadamente, voluptuosamente, sobe em sua busca, tende para seu objeto e para o alvo do seu amor. A mística católica é romântica e está cheia de languidez romântica. É uma mística faminta, que ignora a saciedade; não conhece o matrimônio, mas apenas a voluptuosidade. Agora, esta concepção de Deus como um objeto, como o fim de uma aspiração, é precisamente o que cria o dinamismo exterior do catolicismo. A experiência Católica criou uma cultura marcada fortemente por esse desejo ardente de Deus. A energia católica se espalhou por todos os caminhos da história, e isso se deu, porque, em vez de apreender Deus no coração humano, foi esse mesmo coração humano que se lançava até Deus e o buscava por todos os caminhos em uma dinâmica mundana. A experiência católica fez nascer da fome espiritual e da paixão religiosa insatisfeita, a beleza.
 
Para o oriente Ortodoxo, o Cristo é um sujeito, imanente na alma humana; a alma apreende a Cristo no interior dela mesma, na profundidade do coração. O desejo amoroso de Cristo e sua espera são, assim, impossíveis na mística ortodoxa. Não se tende a Deus, mas se dissolve nele. No templo Ortodoxo, como na alma, tudo é contrário do gótico: não há nele nem frio nem paixão. Na Ortodoxia, há uma temperatura morna, até fazer calor. A imagem evangélica e concreta de Cristo não aparece ali tão próxima. A Ortodoxia considera a sensualidade como um "sortilégio" e rejeita a imaginação como uma via quimérica. Nenhum Ortodoxo grita: "Jesus meu, meu próximo, meu bem amado". Mas no templo e na alma ortodoxa, o Cristo penetra e os esquenta. E não existe ali nenhuma paixão languidecente. A Ortodoxia não é romântica, mas realista e sóbria. A temperança é o caminho místico da Ortodoxia. A Ortodoxia está saciada, preenchida espiritualmente, e sua experiência é um matrimônio e não uma relação de amor. Entendido Deus como sujeito, concebido na profundidade do coração humano, a espiritualidade absolutamente interior desse vínculo não cria um dinamismo exterior, está voltado exclusivamente à uma união interior. Esta experiência da mística Ortodoxa não é, portanto, acolhedora para a cultura, não cria beleza. Ela pareceria estar muda para o mundo exterior. A energia Ortodoxa não se espalhará, pois, pelos caminhos históricos, não criará o externo. Esta diferença dos caminhos tomados pela experiência religiosa contém um profundo segredo, e ambos caminhos são autenticamente cristãos.


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